terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Liberdade em promoção

Até ontem era “hétero top”. Hoje é “gênero zero”. Amanhã, quem sabe, “estado civil: depende”.
A vida mudou — dizem. Mudou tanto que agora identidade virou aplicativo: atualiza conforme o humor, desinstala quando dá trabalho.

A nova liberdade é curiosa. Não exige coragem, não cobra coerência, não pede constância. Ela só pede conforto. Muito conforto. Fico se me trata bem, sumo se frustra, bloqueio se cobra, finjo que nunca existiu se exige. Não é desapego — é terceirização da responsabilidade emocional.

Chamam isso de maturidade afetiva. Antigamente chamávamos de fuga.
Mas os tempos são outros, e a fuga ganhou legenda inspiradora, emoji de coração branco e filtro de pôr do sol.

O discurso é bonito: “não tenho rótulos”.
Na prática: não tenho lastro.
Rótulo, afinal, não é prisão; é compromisso mínimo com a própria palavra. Quem não aceita nomear nada geralmente não sustenta nada. Nem relação, nem escolha, nem promessa feita olhando nos olhos.

A solidão agora virou medalha. “Amo minha própria companhia”, dizem, enquanto escrevem longos textos explicando por que ninguém fica. Autossuficiência performática, exibida em parágrafos emocionados — porque, convenhamos, quem está realmente em paz não precisa anunciar.

O afeto virou produto. Experimenta-se, usa-se, devolve-se. Se não agradar, troca-se. E chama-se isso de evolução.
Evolução para onde? Para um mundo onde tudo é descartável, inclusive as pessoas, desde que o descarte seja educado e venha com justificativa terapêutica.

No fundo, não é sobre gênero, rótulo ou orientação. Nunca foi.
É sobre evitar o peso de escolher e sustentar.
É sobre confundir liberdade com ausência de consequências.
É sobre querer o bônus do vínculo sem aceitar o ônus do compromisso.

As tradições antigas — famílias, comunidades, artes marciais — sempre souberam de algo simples: caráter não é o que você sente hoje, é o que você sustenta quando o encanto acaba. O resto é performance.

Liberdade de verdade não é poder ir embora a qualquer desconforto.
Liberdade de verdade é ter raiz suficiente para ficar quando dá trabalho.

Mas isso, claro, não rende curtida.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A Mulher que não nasceu, se perdeu no caminho.

Ela acordou decidida a ser livre.
Livre de tudo, principalmente da realidade.

Pegou o livro na estante, capa gasta, cheiro de café frio e sublinhados raivosos. Simone de Beauvoir. Ali estava a sentença inaugural, repetida como mantra, tatuada em camiseta e bio de Instagram: não se nasce mulher, torna-se. Pronto. O resto virou rodapé da história.

O curioso é que ninguém perguntou em que exatamente ela se tornaria. Mas isso nunca atrapalhou uma boa revolução.

Beauvoir escreveu em cafés parisienses, cercada de fumaça, intelectuais e contradições. Defendia liberdade enquanto orbitava Sartre como satélite fiel. Criticava hierarquias enquanto se beneficiava delas. Pregava autonomia enquanto moldava jovens alunas conforme sua própria visão de mundo. Nada mais humano. Nada mais esquecido.

O feminismo moderno leu isso tudo e pensou:
“Excelente. Vamos radicalizar.”

A biologia virou superstição medieval. O corpo, um erro de fábrica. A maternidade, uma espécie de recaída moral. A mulher forte agora é aquela que não precisa de ninguém, não deve nada a ninguém e, de preferência, desconfia de tudo que veio antes de 1968.

A tradição virou palavrão. Família virou suspeita. Hierarquia virou opressão. Responsabilidade virou gatilho emocional.

E a liberdade… ah, a liberdade virou uma senhora histérica: tudo pode, desde que você pense igual.

Criou-se então a mulher moderna definitiva.
Ela é absolutamente livre, mas está sempre cansada.
Empoderada, mas permanentemente indignada.
Independente, mas precisa de validação constante.
Desconstruída, mas rigidamente obediente ao discurso do dia.

Se escolhe ser mãe, “cuidado, foi socializada”.
Se escolhe não ser, “agora sim, consciente”.
Se discorda, é alienada.
Se questiona, é inimiga.
Se pensa sozinha, aí já é caso grave.

Beauvoir provavelmente observaria tudo isso com um cigarro na mão e um meio sorriso cínico. Ela sabia. No fundo, sempre soube. Ideias libertárias, quando tratadas como dogma, não libertam. Substituem um catecismo por outro.

O mais irônico é que, ao negar a biologia, o tempo, os limites e a própria condição humana, o feminismo atual acabou recriando aquilo que dizia combater:
um modelo único de mulher.
Só que agora sem vestido, sem avental e com muita raiva acumulada.

No fim das contas, talvez Simone tivesse razão em uma coisa que ninguém gosta de admitir:
o ser humano não nasce pronto.
Mas também não se constrói no vazio.

Liberdade sem chão não é voo.
É queda com discurso bonito.

E discurso, como sempre, não amortece impacto.