Ela acordou decidida a ser livre.
Livre de tudo, principalmente da realidade.
Pegou o livro na estante, capa gasta, cheiro de café frio e sublinhados raivosos. Simone de Beauvoir. Ali estava a sentença inaugural, repetida como mantra, tatuada em camiseta e bio de Instagram: não se nasce mulher, torna-se. Pronto. O resto virou rodapé da história.
O curioso é que ninguém perguntou em que exatamente ela se tornaria. Mas isso nunca atrapalhou uma boa revolução.
Beauvoir escreveu em cafés parisienses, cercada de fumaça, intelectuais e contradições. Defendia liberdade enquanto orbitava Sartre como satélite fiel. Criticava hierarquias enquanto se beneficiava delas. Pregava autonomia enquanto moldava jovens alunas conforme sua própria visão de mundo. Nada mais humano. Nada mais esquecido.
O feminismo moderno leu isso tudo e pensou:
“Excelente. Vamos radicalizar.”
A biologia virou superstição medieval. O corpo, um erro de fábrica. A maternidade, uma espécie de recaída moral. A mulher forte agora é aquela que não precisa de ninguém, não deve nada a ninguém e, de preferência, desconfia de tudo que veio antes de 1968.
A tradição virou palavrão. Família virou suspeita. Hierarquia virou opressão. Responsabilidade virou gatilho emocional.
E a liberdade… ah, a liberdade virou uma senhora histérica: tudo pode, desde que você pense igual.
Criou-se então a mulher moderna definitiva.
Ela é absolutamente livre, mas está sempre cansada.
Empoderada, mas permanentemente indignada.
Independente, mas precisa de validação constante.
Desconstruída, mas rigidamente obediente ao discurso do dia.
Se escolhe ser mãe, “cuidado, foi socializada”.
Se escolhe não ser, “agora sim, consciente”.
Se discorda, é alienada.
Se questiona, é inimiga.
Se pensa sozinha, aí já é caso grave.
Beauvoir provavelmente observaria tudo isso com um cigarro na mão e um meio sorriso cínico. Ela sabia. No fundo, sempre soube. Ideias libertárias, quando tratadas como dogma, não libertam. Substituem um catecismo por outro.
O mais irônico é que, ao negar a biologia, o tempo, os limites e a própria condição humana, o feminismo atual acabou recriando aquilo que dizia combater:
um modelo único de mulher.
Só que agora sem vestido, sem avental e com muita raiva acumulada.
No fim das contas, talvez Simone tivesse razão em uma coisa que ninguém gosta de admitir:
o ser humano não nasce pronto.
Mas também não se constrói no vazio.
Liberdade sem chão não é voo.
É queda com discurso bonito.
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